quinta-feira, 30 de abril de 2026
Silencio e idiotice
Há um tipo muito particular de ecossistema profissional onde tudo parece funcionar, precisamente porque ninguém mexe no que está errado. Nesse habitat, o idiota não é um acidente: é uma espécie protegida. Sobrevive não pela qualidade do que diz, mas pela passividade de quem o ouve. É o equivalente organizacional de um ruído de fundo: irritante, constante, e, com o tempo, aceite como inevitável.
Responder-lhe? Um equívoco clássico. Não por falta de argumentos, mas por erro de diagnóstico. O idiota não precisa de razão; precisa de inércia à volta. E essa, diga-se, nunca falta. Há sempre um silêncio coletivo que funciona como estufa: mantém a temperatura ideal para que a irrelevância floresça com vigor.
Mas o verdadeiro requinte não está no idiota. Está na outra peça do puzzle: o profissional cuja principal competência é não estar. Não se ausenta … “reposiciona-se”. Não falha … “prioriza”. Não decide … “aguarda enquadramento”. É uma coreografia elegante de indisponibilidade, afinada ao milímetro para coincidir com tudo o que exige responsabilidade real.
Curiosamente, o sistema não colapsa. Há sempre quem assegure. Quem esteja. Quem resolva. Quem absorva o impacto da ausência alheia sem transformar isso num problema formal. E aqui reside o truque: enquanto o serviço for garantido, a ausência é sustentável. Melhor: é premiada pela sua própria invisibilidade.
Forma-se então um equilíbrio digno de estudo:
• O idiota fala e ninguém o contraria com consequências.
• O responsável ausenta-se e ninguém o responsabiliza.
• O competente resolve e ninguém o torna visível.
• E todos concordam, tacitamente, que “isto vai andando”.
Vai andando, essa expressão magnífica que substitui indicadores, responsabilidade e ambição por uma espécie de resignação operacional. É também o cimento dessa visão provinciana onde exigir é visto como excesso e expor falhas é considerado falta de “espírito de equipa”.
Entretanto, a profissão continua a ser desvalorizada. Mistério? Difícil. Se o trabalho crítico é feito em silêncio, não entra na narrativa. Se a ausência não tem custo explícito, transforma-se em estilo de gestão. Se a mediocridade não é confrontada, ganha estatuto de normalidade.
Há aqui uma ironia pouco confortável: quem sustenta o sistema é, em parte, responsável por o manter assim. Não por incompetência, pelo contrário, mas porque a competência tem sido usada como amortecedor universal. Resolve-se tudo, evita-se o conflito, protege-se o funcionamento imediato… e adia-se indefinidamente a correção estrutural.
Talvez a questão não seja se vale a pena responder ao idiota. Nem sequer se vale a pena denunciar a ausência programada de quem devia estar. A questão é mais fria: quanto custa, de facto, manter este modelo… e quem está a pagar a fatura?
Porque enquanto o silêncio continuar a ser a principal ferramenta de funcionamento, a desvalorização não é um efeito colateral. É o produto final.
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