quarta-feira, 27 de maio de 2026

Há uma diferença profunda entre “estar ocupado” e ser verdadeiramente útil. Na saúde, e particularmente nos cuidados intensivos e na enfermagem de reabilitação, essa diferença pode determinar não apenas a qualidade dos cuidados, mas também a dignidade do doente. Existe uma cultura instalada em muitos contextos profissionais onde o movimento constante é confundido com competência. O profissional que nunca pára, que anda permanentemente de um lado para o outro, que acumula tarefas sem critério, é frequentemente visto como o mais dedicado. Mas nem sempre é assim. Muitas vezes, o excesso de actividade serve apenas para alimentar rotinas mecânicas, responder a métricas vazias ou criar a ilusão de produtividade. Trabalhar “a passo de caracol”, prolongando intervenções desnecessárias, ocupando o tempo com procedimentos repetitivos sem impacto real, pode transformar o doente num objecto passivo de tarefas em série. E isso é particularmente grave quando o foco deixa de ser a necessidade concreta da pessoa para passar a ser apenas o preenchimento do turno. O doente não precisa de profissionais permanentemente ocupados. Precisa de profissionais atentos. Profissionais capazes de observar, decidir, priorizar e intervir com intenção clínica. Há momentos em que fazer menos é, na verdade, fazer melhor. Um posicionamento correcto, uma mobilização feita no momento certo, uma intervenção respiratória bem dirigida, um silêncio respeitador, ou até a decisão consciente de não sobrecarregar o doente com estímulos inúteis, podem ter mais impacto do que horas de actividade incessante sem objectivo definido. Trabalhar para fazer a diferença exige pensamento crítico. Exige capacidade de distinguir entre actividade e utilidade. Exige compreender que a qualidade dos cuidados não se mede pela exaustão do profissional nem pela quantidade de actos realizados, mas pelo efeito concreto que esses actos têm na recuperação, conforto e autonomia do doente. A obsessão pelo “estar sempre a fazer qualquer coisa” cria profissionais cansados, equipas desorganizadas e doentes desgastados. Já a prática clínica orientada por objectivos produz cuidados mais humanos, mais eficientes e mais inteligentes. Na saúde, o verdadeiro valor não está em parecer ocupado. Está em ser relevante.

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Silencio e idiotice Há um tipo muito particular de ecossistema profissional onde tudo parece funcionar, precisamente porque ninguém mexe no que está errado. Nesse habitat, o idiota não é um acidente: é uma espécie protegida. Sobrevive não pela qualidade do que diz, mas pela passividade de quem o ouve. É o equivalente organizacional de um ruído de fundo: irritante, constante, e, com o tempo, aceite como inevitável. Responder-lhe? Um equívoco clássico. Não por falta de argumentos, mas por erro de diagnóstico. O idiota não precisa de razão; precisa de inércia à volta. E essa, diga-se, nunca falta. Há sempre um silêncio coletivo que funciona como estufa: mantém a temperatura ideal para que a irrelevância floresça com vigor. Mas o verdadeiro requinte não está no idiota. Está na outra peça do puzzle: o profissional cuja principal competência é não estar. Não se ausenta … “reposiciona-se”. Não falha … “prioriza”. Não decide … “aguarda enquadramento”. É uma coreografia elegante de indisponibilidade, afinada ao milímetro para coincidir com tudo o que exige responsabilidade real. Curiosamente, o sistema não colapsa. Há sempre quem assegure. Quem esteja. Quem resolva. Quem absorva o impacto da ausência alheia sem transformar isso num problema formal. E aqui reside o truque: enquanto o serviço for garantido, a ausência é sustentável. Melhor: é premiada pela sua própria invisibilidade. Forma-se então um equilíbrio digno de estudo: • O idiota fala e ninguém o contraria com consequências. • O responsável ausenta-se e ninguém o responsabiliza. • O competente resolve e ninguém o torna visível. • E todos concordam, tacitamente, que “isto vai andando”. Vai andando, essa expressão magnífica que substitui indicadores, responsabilidade e ambição por uma espécie de resignação operacional. É também o cimento dessa visão provinciana onde exigir é visto como excesso e expor falhas é considerado falta de “espírito de equipa”. Entretanto, a profissão continua a ser desvalorizada. Mistério? Difícil. Se o trabalho crítico é feito em silêncio, não entra na narrativa. Se a ausência não tem custo explícito, transforma-se em estilo de gestão. Se a mediocridade não é confrontada, ganha estatuto de normalidade. Há aqui uma ironia pouco confortável: quem sustenta o sistema é, em parte, responsável por o manter assim. Não por incompetência, pelo contrário, mas porque a competência tem sido usada como amortecedor universal. Resolve-se tudo, evita-se o conflito, protege-se o funcionamento imediato… e adia-se indefinidamente a correção estrutural. Talvez a questão não seja se vale a pena responder ao idiota. Nem sequer se vale a pena denunciar a ausência programada de quem devia estar. A questão é mais fria: quanto custa, de facto, manter este modelo… e quem está a pagar a fatura? Porque enquanto o silêncio continuar a ser a principal ferramenta de funcionamento, a desvalorização não é um efeito colateral. É o produto final.

terça-feira, 28 de abril de 2026

Vamos lá abanar um pouco as coisas... o texto que se segue apenas vincula a minha opinião sobre o assunto. Se leres até ao fim, compartilha a tua opinião...e já agora deixa um "gosto" Experiência em UCI: vantagem real ou argumento confortável? Defender que a experiência prévia em cuidados intensivos melhora o desempenho do enfermeiro de reabilitação não é controverso — mas também não é suficiente. A prática em UCI molda algo difícil de ensinar em contexto teórico: leitura clínica em tempo real. O reconhecimento precoce de instabilidade hemodinâmica, alterações ventilatórias subtis ou sinais iniciais de fadiga neuromuscular permite decisões mais seguras durante a mobilização. Não se trata apenas de “ver números”, mas de interpretar tendências e antecipar descompensações antes de se tornarem evidentes. A isto soma-se a gestão integrada de dispositivos e suporte avançado. Mobilizar um doente com cateteres centrais, linha arterial, drenos torácicos ou ventilação invasiva não é um ato técnico isolado — é um exercício de coordenação fina, onde o erro tem consequências imediatas. A experiência prévia reduz o risco de eventos adversos e aumenta a fluidez da intervenção. Outro ponto frequentemente subvalorizado é a gestão simultânea de variáveis críticas: dor, sedação, delirium e suporte vasoativo. A mobilização segura em UCI não depende apenas da força muscular do doente, mas do equilíbrio entre estas dimensões. Quem já viveu este contexto tende a tomar decisões mais ajustadas, evitando tanto a progressão imprudente como o conservadorismo excessivo. Mas aqui termina a parte confortável do argumento. A experiência em cuidados intensivos, por si só, não produz um bom enfermeiro de reabilitação. Pode até produzir o contrário. Uma cultura tradicional de UCI — centrada na estabilidade absoluta, na sedação profunda e na imobilidade como estratégia de proteção — entra frequentemente em conflito com os princípios da reabilitação precoce. Reabilitar em contexto crítico exige competências próprias: avaliação funcional estruturada, prescrição e progressão de exercício terapêutico, integração respiratória na função e capacidade de trabalhar no limiar da instabilidade. Não basta saber “quando não mobilizar”; é essencial saber quando mobilizar apesar do risco, e como o fazer de forma controlada. É aqui que surge a verdadeira diferença: não entre quem tem ou não experiência em UCI, mas entre quem consegue integrar essa experiência numa lógica de funcionalidade precoce. Um enfermeiro de reabilitação eficaz em cuidados intensivos não é o mais cauteloso nem o mais técnico. É aquele que consegue equilibrar segurança com progressão, risco com benefício, estabilidade com recuperação. A experiência prévia em UCI pode ser uma vantagem clara — mas apenas quando deixa de ser um limite. Caso contrário, transforma-se num argumento confortável para justificar o atraso daquilo que mais impacto tem no doente crítico: recuperar função enquanto ainda está instável.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Assédio moral institucional: obstrução deliberada de competências Quando um profissional é sistematicamente afastado da sua área de especialização e remetido para tarefas residuais, não estamos apenas perante uma má gestão de recursos humanos. Estamos perante um padrão potencialmente configurável como **assédio moral organizacional**. A obstrução deliberada de competências não se manifesta em insultos ou confrontos diretos. É mais subtil: * exclusão de decisões técnicas para as quais o profissional está habilitado; * retirada injustificada de funções nucleares; * redistribuição estratégica de responsabilidades para esvaziar a sua autonomia; * confinamento a tarefas administrativas ou operacionais sem correspondência com o seu perfil técnico. Este tipo de prática produz três efeitos previsíveis: 1. **Desqualificação simbólica** – O profissional deixa de ser reconhecido pelo seu saber especializado. 2. **Erosão identitária** – A identidade profissional constrói-se pela prática; ao retirar-se o campo de ação, fragiliza-se o sentido de competência. 3. **Normalização da mediocridade institucional** – A organização perde capacidade técnica ao subutilizar recursos qualificados. | O problema central não é apenas jurídico; é ético e estrutural. Quando especialistas são afastados das suas áreas de atuação, a instituição transmite uma mensagem: a competência não é um valor estratégico, é contingente ao jogo de poder interno. A questão que se impõe é desconfortável: * Trata-se de incompetência na gestão ou de estratégia deliberada de controlo? * Existe receio da autonomia técnica do especialista? * A redistribuição de funções responde a critérios clínicos/organizacionais ou a dinâmicas pessoais? A obstrução de competências é uma forma de violência silenciosa. Não deixa marcas visíveis, mas corrói legitimidade institucional e segurança dos cuidados. E, paradoxalmente, é muitas vezes racionalizada como “ajuste organizacional”. Se a especialização é reconhecida formalmente, mas neutralizada na prática, há uma contradição estrutural. Uma organização que certifica competências e depois as inutiliza está a comprometer a sua própria coerência. A pergunta decisiva não é apenas “há assédio?”, mas: **quem ganha com a desativação da competência especializada?**

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Se dum lado chove do outro troveja...

Que é como quem diz "venha o Diabo e escolha" Ora bem passo a explicar. Durante muito muito tempo assistimos mais ou menos inertes às patacoadas sindicais que por sabe lá qual o motivo (mas desconfio), cada vez que reuniam com o ministério a nossa situação piorava. Teimaram nas teorias do PCP e lixaram-nos com F grande... (claro que haverá muitos colegas que não concordam, mas esta é a minha opinião, vale o que vale). Hoje qual não é o meu espanto, e depois de finalmente a comunicação social começar a falar dos problemas de enfermagem (ALELUIA,gostava de saber que bicho lhes mordeu, mas a cavalo dado não se olha o dente), vem o Sr Ministro defender o indefensável com uma patacoada. Bem apenas posso falar por mim, e propositadamente vou deixar de fora da minha analise o que observo nos colegas com que trabalho e com quem troco opiniões nos poucos períodos de pausa, acusa o Sr Ministro que a exaustão dos profissionais de enfermagem se deve à acumulação de funções no privado e social. Ora bem se os enfermeiros fossem remunerados convenientemente se calhar não precisavam de duplo em prego para sobreviver, porem não é este o meu caso apenas trabalho no sector publico e cada vez recebo menos. O que muita gente não percebe ou finge não querer perceber é que trabalhar por turnos, de noite e aos fins de semana é muito penoso e desgastante, até à algum tempo atrás este agravamento da penosidade era compensado no ordenado, agora depois destas contenções cortaram para metade as horas de compensação. Neste momento depois da redução trabalho aos fins de semana, feriados, noites e no final do mês nem o ordenado base levo para casa. Explique-me Sr Ministro qual a minha motivação para trabalhar por turnos e diga-me se trabalhar assim sem alternativa de mudar não dá exaustão psicológica? Enfermeiro movido a café.

domingo, 12 de maio de 2013

Dia do Enfermeiro- a minha reflexão

12 de Maio Dia Internacional do Enfermeiro



Em todas as comemorações e aniversários algumas pessoas têm tendência para fazerem retrospectivas e perspectivarem o novo ano que agora se inicia, eu sou uma dessas pessoas.
Ao assinalarmos mais um dia do enfermeiro não posso deixar de pensar nos ataques que sofremos neste ultimo ano, mais uma vez fomos marginalizados dentro do SNS, mais uma vez fomos tratados como actores de segunda categoria que apenas prestam vassalagem aos protagonistas principais. Vimos o pagamento das horas prestadas em serviço nocturno e fins de semana reduzidos a metade, em nome de uma contensão económica que lesa sempre os mesmos, enquanto outros profissionais do SNS que alem de receberem horas extra em barda ainda vêem o salário valorizado em 800€ por mais 5 horas semanais  (que na maioria dos casos não cumprem, mas isso é outra historia).
As organizações de enfermagem, nomeadamente os sindicatos têm-se mantido muito ocupados em defesa dos CIT (e bem) todavia têm-se esquecido dos outros CTFP com inúmeros anos de serviço que há mais de uma década não progridem na carreira e que ainda não foram integrados na nova carreira (por muito má que seja) e que em nada se viram valorizados, têm-se esquecidos dos muitos colegas que com sacrifício pessoal e monetário foram adquirir novas competências, são reconhecidos como especialistas pela OE mas que não constam na nova carreira. Se calhar seria de colocar estes itens na agenda para que no próximo 12 de Maio possamos ter algo que comemorar.
Contudo não seria justo se não referi-se as preocupações sobre estas matérias do SIPE e o documento que enviaram ao MS bem como a campanha publicitaria da OE e que na minha modesta opinião esta muito bem elaborada, finalmente se percebeu que temos que vender a nossa imagem e que disso depende o modo como a sociedade nos vê. Agora temos todos nós nos nossos locais de trabalho concluirmos esta campanha e demonstrarmos aos nossos utentes/clientes e respectivas famílias a nossa impressibilidade no SNS.

domingo, 28 de abril de 2013

Carta aberta aos Enfermeiros

Caros colegas


Estou farto de ver nas redes sociais as publicações lamecha que os colegas publicam.
Como já defendi muitas vezes a conotação da profissão com valores de comiseração e compaixão para com os doentes só dimuinuiem o valor social da enfermagem. Quem ajuda é voluntário e não "merece" remuneração, a ajuda é por amor, pena ou compaixão!
Claro que na enfermagem existe a relação de ajuda para com o utente / cliente, mas esta relação deve ser profissional e de  busca da maior autonomia possível do utente / cliente.

Caros colegas por favor deixem-se de visões piegas da profissão e afirmem-se como profissionais sérios e dignos de reconhecimento.

 Atenciosamente

Enfermeiro movido as café